segunda-feira, julho 03, 2006

Mariano...

Este post era para ter sido escrito Domingo, mas só agora tive tempo de o fazer...
O fim-de-semana passado foi diferente do costume...continuou a ser marcado por um estudo que desgasta dia após dia as minhas células nervosas e me faz envelhecer de uma forma acelerada, mas teve uma presença diferente, a de um pequeno rapazito, reguila, o Mariano. É um bom exemplo de como é preciso ter sorte onde se nasce...e hoje sofre pela negligência familiar. Sofrer não sofre, porque vive na inconsciência feliz da pré-infância, mas é um pequeno ciganito de 3 anos e meio que sofre de um atraso psicomotor que o faz agir como uma criança de ano e meio, tudo porque nunca foi estimulado pelos pais, nunca teve carinho, nunca teve as pequenas brincadeiras que o fazem crescer, nunca experimentou o mundo. Até que um dia, por acção do tribunal, o Mariano foi retirado dos pais e entregue à APAC de Barcelos, vivendo agora no centro de acolhimento de menores dessa instituição e recebendo terapia por parte da minha irmã, com vista ao seu desenvolvimento psicomotor, numa tentativa de minorar os efeitos deste atraso no futuro próximo da criança. Dentro desse âmbito, a minha decidiu trazê-lo a Matosinhos, para passar um fim-de-semana diferente, com pessoas diferentes e experiências novas.
Mas que criança encantadora. Nota-se perfeitamente as feições ciganas...pelo menos anda sempre com aquele ar robusto, que esconde a sua fragilidade num ar de "mau" com o prócero e o corrugador supraciliar contraídos...mas que rapidamente, em cada laivo de felicidade por cada brincadeira que se assume uma novidade, se desfaz num sorriso mágico de uma criança que dá os primeiros passos num mundo novo por descobrir. Raramente chora (talvez a vida o vai ensinando a ser forte) e quando se magoa fica a olhar para o sítio do "doi-doi" e esconde naquele ar valente a dor que sente. Até pensei que tivesse um gene que fabricasse Xanax ou Prozac, porque andava sempre bem disposto e mesmo depois de ralhar-mos com ele, respondia-nos sempre com um sorriso que acabava por vencer a nossa ira. Foi tão bom subir até ele (digo subir porque não tenho a dignidade que ele tem) e brincar, correr, saltar, ajudá-lo a descobrir o mundo em pequenos gestos e deixar-me conquistar pelo brilho dele ao ligar um interruptor, ao abrir uma torneira, ao pintar, ao dançar. Mas a melhor experiência, aconteceu Sábado á noite.
Chegava de um churrasco, por volta da 0:45 e encontrei a minha irmã no sofá a ver um filme e muito mal-disposta...parece que a emoção do jogo Portugal-Holanda lhe fez parar a digestão e não conseguia dormir. O Mariano dormia com ela, mas nessa noite vi que ela precisava de um bom descanso e ofereci-me para dormir com ele (sabem como são os putos, dão pontapés e mexem-se para todos os lados). Quando cheguei ao quarto dela, o Mariano estava muito agitado, contorcia-se todo e batia com a cabeça no estrado da cama...presumi que estivesse a ter um pesadelo e tive de o acordar para ele se acalmar. Resultado: desatou a chorar...foi triste ver aquele rapaz robusto e valente naquela angústia...tão frágil. Confesso que não sabia o que fazer, até que por instinto, deitei-o por cima do meu peito, deixei-o arragar o meu polegar...comecei a cantar para ver se o acalmava (pelo menos é o que as mães fazem aos filhos, certo?). "O silêncio deixa-me ileso e que importância tem...". Não sei porquê, foi a primeira música que me veio à cabeça e parece que resultou. Rapidamente, o pequeno Mariano acalmou, adormeceu...sempre agarrado ao meu polegar. Talvez em mim, ele tenha encontrado protecção para aquele momento...e eu, que vinha de uma noite difícil, para esquecer, encontrei na ternura daquele "pequeno valente", daquele momento, um conforto que também me acalmou. Adormeci...a última imagem de que me lembro foi a dele a dormir, tranquilo, sereno. Deu pontapés de noite? Mexeu-se? Não senti nada...e que bom foi ter sido acordado por ele na manhã seguinte e ver o seu sorriso, mesmo de quem estava pronto e cheio de energia para mais um dia de descoberta.
Passou um dia, mas já tenho saudades dele. Anseio o dia em que ele volte...para voltar a aprender com ele.
Obrigado Mariano...