quarta-feira, junho 07, 2006

Ensaio mórbido...Ensaio vivo...

Ontem, tive a aula de Anatomia mais interessante do ano, não pela parte da Miologia que foi dada, até porque estudar os músculos do antebraço é das partes mais difíceis da Miologia, mas pelo simples facto de termos feito esse estudo em contacto directo com peças cadavéricas. Muitos de vocês dirão: "Que nojo...". É verdade, em parte foi. Não deixa de ser estranho ver cortes de ombros e braços impregnados de formol, com alguma decomposição evidente, mas também não deixou de ser fascinante desmistificar o que a nossa pele recobre. Nos livros as imagens são tão perfeitas, tão claras...e ali tudo se torna mais difícil, tudo nos parece igual e só se consegue distinguir uma massa muscular única de onde partem imensos tendões, que supostamente têm origem em músculos distindos. Mas a coisa lá se vai tornando clara e aquilo a que chamam "olho clínico" lá se vai apurando e é nessa altura que nos "deixamos lebar pelas emoções" e pela beleza e perfeição do nosso corpo.
No entanto, o meu pensamenton não esteve apenas focado na ciência e não consegui deixar de pensar no corpo, como uma dimensão da vida. A partir de certo ponto, vocês começam a olhar para as peças apenas como um instrumento de estudo, como se não houvesse qualquer vida a elas inerente, e na verdade não há. Mas também começam a pensar que aquele corpo pertenceu a alguém...começam a imaginar se era homem ou mulher, se era branco ou negro, se era alto ou baixo...e surge uma enorme curiosidade em saber quem o habitou e de que modo aquele corpo foi utilizado...se para fazer o bem, se para fazer o mal. Dizem-nos que aquelas peças cadavéricas correspondem a partes do corpo de gente pobre, gente de identidade desconhecida, gente cujo corpo não foi reclamado após a morte...e vocês agora pensam: "Mas que falta de dignidade!" Será? Fazem-se os funerais, a última despedida, cheios de pompa e circunstância, veste-se o cadáver a que insistentemente chamam de pessoa, para o fechar num caixão coberto de terra e esperar que os primeiros decompositores da cadeia trófica, reciclem a matéria orgânica até permanecerem uns vestígios de cálcio. Chamam a isto dignidade? Acho que não...Acredito que o cadáver formolizado que esteve perante os meus olhos tinha mais dignidade, pelo simples facto de ter servido para que alguém tivesse aprendido um pouco mais sobre aquilo a que chamam a "máquina perfeita", por ter servido para a aquisição de um conhecimento académico fundamental para aquilo que será a vida profissional de algumas pessoas. Não teve direito a lápide, não teve direito a flores, mas ensinou, deixou-se estudar...o conhecimento deu-lhe dignidade. Acredito que a minha sensibilidade esteja um pouco fria e verde nesta matéria...talvez porque nunca tive de enfrentar a morte de um familiar muito querido ou de um amigo e acredito que talvez aí a minha opinião mude e o funeral se torne algo realmente importante para mim. Até lá permaneço na minha imaturidade.
Mas voltando a olhar para a dimensão do corpo...cada vez mais tenho a convicção de que existe uma alma que o move. Por mais perfeito que o cérebro seja, é impossível que funcione sem uma alma que lhe dê vida. Não acredito, ponto! Vou passar 6 anos da minha vida totalmente absorvido pela tentativa de conhecer um corpo e formas de reparar as suas avarias...mas o que será feito da minha alma? Ou melhor, de que forma a minha alma comandará o meu corpo e sendo a minha alma eu próprio, de que forma utilizarei este instrumento que Deus me deu? Dizem que a Medicina é uma profissão nobre...para quê estudar um copro que sem uma alma não é nada? Se o corpo morrer a alma vive! No entanto, é através do corpo que a nossa alma, que cada um de vós, exerce a sua acção, é através do corpo que vocês se tornam palpáveis, gnosíveis, é através de um corpo que memorizamos alguém...e quando lembramos alguém, a imagem que fica é a imagem do corpo. É através do corpo que a alma pode sentir as melhores sensações: o cheiro, o gosto, o som, a intensidade de um beijo, de uma relação sexual onde dois corpos se unem...mas também as piores sensações como a dor, a fome, a agonia. Acho que sem a dimensão do corpo a nossa alma não poderia crescer...são estas sensações que ajudam ao nosso crescimento, sensações que nos ajudam a apaixonar pelas pequenas coisas da vida, mas também a perceber a importância da dor. É na alma que me torno pessoa, aliás, a minha pessoa é a minha alma...é a minha alma que aprende a amar, é a minha alma que aprende a perdoar, é a minha alma que aprende a conviver, é a minha alma que aprende a sofrer...é a minha alma que aprende a viver. Mas é através do corpo que ela se manifesta e é o corpo que lhe dá o prémio do seu bom comportamento: quando amamos, o corpo dá-nos a óptima sensação desse sentimento...mas também nos pode castigar quando algo na nossa alma não está correcto e é aí que sentimos a dor. No entanto, há dores físicas que são injustas...dores que a nossa alma não merece sofrer...aquilo a que chamamos doença. Acredito que o papel do médico seja este: uma ajuda para o fim da dor injusta que a alma sofre.
Comecei por dizer que o corpo era morte...mas agora termino a dizer que o corpo é vida, a manifestação visível da nossa alma. Cuidem da vossa alma, cresçam, amem, deixem que o vosso corpo vos premeie...mas também cuidem dele, lembrem-se que a vossa alma vive através dele, lembrem-se que vocês vivem através dele! Ele é a imagem que as pessoas guardarão de vocês...ele é a imagem que a vossa alma quiser. Será o corpo capaz de manifestar a beleza da vossa alma? Sim, mais do que a beleza que a natureza vos programou.
Nessa aula de Anatomia sinto que o meu conheimento cresceu (ou então não, porque já não me lembro de muita coisa), mas sinto também que a minha alma cresceu...que cresci.

Curioso...vejam como comecei com um enasio sobre a morte...e acabei com um ensaio sobre a vida! É assim que tem de ser...

3 comentários:

César Vidal disse...

Profunda reflexão!

Como usou Abel Salazar um dia, também eu vou usar agora:

"O médico que só sabe Medicina, nem Medicina sabe."

E tu Gil, tu tás lá... tás lançado!!!

Esta merda nem parece escrita por ti, "oh moço"...

lol

Filipe_des disse...

é gil, é isso mesmo

todos fazemos parte deste ciclo vicioso da vida
deste ciclo Homem

realmente tá excelente a reflecção..

reflectiste mm! tb ver carne morta ao vivo.. eu acho que tb reflectiria..lol

realmente gil, ver uma pessoa a ser enterrada ajuda mto melhor a sarar a ferida que fica em nós.. o importante é que tenhamos opurtunidade de nos despedir e de saber que não dá para a ver mais...
imagina que conhecias a pessoa que tavas a estudar.. de certeza que não conseguias estar ali..
nem sequer pensar nisso!

o Homem é do caraças.

um grande abraço gil!
és o maior!

be disse...

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